__ temos o que temos. __ às vezes, prometemos. __ mas se temos o que temos, por quê prometemos? __ prometemos o que não temos? __ ou não temos sequer o que prometemos?
ela interrompe:
__ deixe de perguntas. __ e de promessas. __ deixe de lado. __ vá embora! . .
esqueceram-me no bolso de uma calça. assim! sem dramas. nem culpas. fui lavado! estendido! seco! no início, achei a situação conveniente. depois de alguns dias, começou a preocupar. e sentia fome! e sentia sede! não me perceberam! um amigo perguntou uma ou duas vezes, talvez três, não tenho mais certeza. a única é que continuo ali.
descarrilhou-se. nos últimos meses estava em tantos trânsitos, tantas vias, vastas, várias. havia a que apontava todas às terças-feiras, às vezes, catorze e trinta, outras, quinze, quinze e quinze; mas sempre ali. pontual, elegante e gentil. de noite eram outros olhares. de dia tinha uma senhora que nas tardes que ia ao supermercado, farmácia, isso&aquilo, comentava frases absurdas e ele escutava; num sábado saiu ao encontro desta para ouvir e ouviu. algumas vezes não saia de casa; era sempre assim, algumas vezes não encontrava convicções que lhe fizesse certezas.
__já era tri fortão naquela época.
__pinicando todo com este encontro.
__antes ele do que ela.
e era sempre ele.
ela, a senhora, comentava sobre um homem.
voltando para casa pensava.
e eu penso sobre este homem que a mulher que comentava frases absurdas comentava.
e este homem e esta mulher são tantas coisas; absurdas ou não. mas não são destes que contava há pouco. é sobre o homem - não este, aquele das várias vias. acho que havia algo sobre descarrilhar-se, meses, silêncio, isso&aquilo, algo sobre a semana (ele gostava principalmente das quintas-feiras). e havia a que sorria.
seu corpo sorria. não tinha horários.
nem vestes.
vinha nua.
o cabelo vinha nu.
o rosto dançava leve e o deixava leve e o deixava tenso e o deixava.
haviam tantos trânsitos; teve uma tarde - não lembro o dia - um senhor acho que deveria ter setenta e seis, setenta e sete anos, atravessava a rua e todos olham um senhor de setenta e seis, setenta e sete anos atravessando a rua.
ele também olhou.
e carros e motos e prédios e pessoas e pessoas.
e o senhor de setenta e seis anos atravessando a rua.
mas havia angústia; talvez porque pensava naquele homem; não ele, o outro, e ele, este outro, também, deveria atravessar a rua e teria setenta e seis, setenta e sete anos; talvez menos.
tudo é tão instantâneo.
tudo é tão imprevisível.
e nada o é.
talvez este homem fosse o que a mulher que comentava frases absurdas comentava.
ele a deixou.
ela o deixou.
ambos enlouqueceram.
ele - velho - atravessando ruas.
ela - louca - comentando frases absurdas.
já haviam dito a ele que estas frases não eram absurdas!
contava esta estória com frequência, teve momentos que incluía suas próprias frases e esperava a reação de todos.
(...)
descarrilhou-se nos últimos meses estava em tantos trânsitos tantas vias vastas várias havia a que apontava todas às terças-feiras às vezes catorze e trinta outras quinze quinze e quinze mas sempre ali pontual elegante e gentil de noite eram outros olhares de dia tinha uma senhora que nas tardes que ia ao supermercado farmácia isso&aquilo comentava frases absurdas e ele escutava num sábado saiu ao encontro desta para ouvir e ouviu algumas vezes não saia de casa era sempre assim algumas vezes não encontrava convicções que lhe fizesse certezas já era tri fortão naquela época pinincando todo com este encontro antes ele do que ela e era sempre ele ela a senhora comentava sobre um homem voltando para casa pensava e eu penso sobre este homem que a mulher que comentava frases absurdas comentava e este homem e esta mulher são tantas coisas absurdas ou não mas não são destes que contava há pouco é sobre o homem não este aquele das várias vias acho que havia algo sobre descarrilhar-se meses silêncio isso&aquilo algo sobre a semana ele gostava principalmente das quintas-feiras e havia a que sorria seu corpo sorria não tinha horários nem vestes vinha nua o cabelo vinha nu o rosto dançava leve e o deixava leve e o deixava tenso e o deixava haviam tantos trânsitos teve uma tarde não lembro o dia um senhor acho que deveria ter setenta e seis setenta e sete anos atravessava a rua e todos olham um senhor de setenta e seis setenta e sete anos atravessando a rua ele também olhou e carros e motos e prédios e pessoas e pessoas e o senhor de setenta e seis anos atravessando a rua mas havia angústia talvez porque pensava naquele homem não ele o outro e ele este outro também deveria atravessar a rua e teria setenta e seis setenta e sete anos talvez menos tudo é tão instantâneo tudo é tão imprevisível e nada o é talvez este homem fosse o que a mulher que comentava frases absurdas comentava ele a deixou ela o deixou ambos enlouqueceram ele velho atravessando ruas ela louca comentando frases absurdas já haviam dito a ele que estas frases não eram absurdas contava esta estória com freqüência teve momentos que incluía suas próprias frases e esperava a reação de todos
(...)
hoje me tornei um homem. sim. no meio da tarde. estava frio. e continua. uma mulher parou ao meu lado. __ você lembra que me ensinou a amarrar o sapato? não entendi, já é noite e ainda não entendo direito. __ sim. você me ensinou a amarrar o sapato. __ por quê fui eu a ensinar amarrar os teus sapatos? __ não sei. só sei que foi você! __ e onde foi isso? __ a lembrança de você me ensinando a amarrar o sapato se passa dentro de um teatro; bem na época do milagre dos olhos que mudaram de cor. (meus olhos mudaram de cor, mas na verdade, os queria roxos). eu tinha sete anos. acho que não sabia o que te dizer na época.
__ de que cor queria teus olhos? encantado, respondi: __ um de cada cor, enxergaria o mundo mais colorido. ela sorriu. __ eu te escolheria de olhos marrom terra e amarelo queimado. __ ah, e outra coisa, apaixonar é fácil e desapaixonar? não entendi, já é noite e ainda não entendo direito. __ desapaixonar? __ sim. você deve ser apaixonado como eu (nunca estou só, tenho medo do escuro e de mim). esse é o nosso dom e o castigo, também. __ castigo? __ sim. mas hoje quero somente o inevitável. eu sorri. __ então, você lembra que me ensinou a amarrar o sapato? __ não. __ sim. você me ensinou a amarrar o sapato. e depois aprendi a correr. e hoje, corro, corro, corro. e ela insistiu. __ que cor quer seus olhos, para que eu possa colher a cor? __ colher a cor? sorri, novamente. __ estas que escolheu, quais eram mesmo? __ marrom terra e amarelo queimado. __ sim. marrom terra e amarelo queimado. aproveite e colha a roxa, também. __ sim. poderíamos pintar nossos olhos! e continuou. __ por quê nunca conversamos antes? só me lembro do dia do sapato! estupefato, respondi. __ não sei. e continuei.
e quando pintaremos nossos olhos? ela fechou os olhos e respondeu. __ em setembro. e ainda de olhos fechados, sussurrou.
__ eu preciso ir. o tempo me chama.